LÍRICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: Uma leitura da poesia de Adélia Prado (resumo)
Sueli de Fátatima Alexandre
A poesia lírica é a representação da subjetividade do poeta, e durante um período da Antigüidade grega foi considerada como nociva, mas a partir de Aristóteles se firma enquanto gênero literário e ganha o direito de se representar enquanto arte gratuita. E no que tange à poesia lírica brasileira, essa gratuidade fica comprometida a partir da Semana de Arte Moderna (1922), momento em que os poetas voltam seus olhares para uma poesia engajada e de cunho crítico. A partir da Pós-modernidade (1970), principalmente com a poesia feminina que, desacreditada diante de uma poética unicamente masculina, busca uma forma particular de sobrevivência; encontrando em poetas como Adélia Prado, com sua poesia representativa do universo cotidiano feminino, uma temática e uma linguagem que traz o sujeito para o centro da poesia.
A palavra lírica derivou-se do vocábulo grego lyrikós, que nomeia um instrumento musical primitivo, com quatro cordas, pertencente à Antigüidade grega. A poesia lírica, naquela época, considerada canto ao som da lira, é considerada hoje expressão dos sentimentos do indivíduo e a revelação imagística do mundo por meio de uma consciência e uma voz emocional, que decorre da preocupação do poeta com o seu próprio “eu”. Para Maria Severina Batista Guimarães (2006, p.1), “A poesia lírica, mais do que a ficção, é desentranhamento, é desvelamento de um estado anímico quase inefável e, por isso, uma luta com a força da palavra que nem sempre é vã [...]”. E para Ungaretti (1994, p. 224), a poesia é indivisível e fruto do mais profundo sentimento do homem, é “dom e fruto de um momento de graça”, que se manifesta superando qualquer força humana.
Partindo para o estudo da poesia brasileira, é possível verificar grandes mudanças a partir da Semana de Arte Moderna (1922), momento em que a poesia deixa a primazia pelo sublime, pelo belo imaginado, e passa a representar o homem do século XX, que vive em um espaço de contradições de valores, e se esmaece ao perder a identidade. Uma poesia que procura incorporar, assim, uma ruptura com o passado como fonte de inspiração ou modelo, e busca uma temática que retrate a situação real e cotidiana do ser humano contemporâneo, que se encontra subjugado por um sistema político-religioso conflituoso. Tornando-se, dessa forma, um instrumento de crítica social e um registro histórico em que o travo irônico demarca o tom. Isso assinala a perda de sua gratuidade e instaura a ênfase na função de crítica ao social. E diante de tal situação, o lirismo perde um pouco o valor de uma consciência emocional e passa a ser uma manifestação emocional do poeta ante um mundo conturbado, cujo foco temático agora se ancora na denúncia do desequilíbrio no qual o ser submeteu sua própria existência, tornando-se, dessa forma, um ser existencialmente fragmentado, como diz Friedrich (1991, p. 24): “O sofrimento do eu incompreendido, diante da proscrição do mundo circunstante provocada por ele mesmo e a volta à interioridade preocupada consigo mesma, torna-se um ato de orgulho; [...]”. Como bem exemplifica o poema “As palavras e os nomes”, de Adélia Prado:
[...]
Meu nome agora é ninguém,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu.
[...]
(Adélia Prado, 1991, p. 383)
Mas a partir de
[...]
Eu hoje faço versos de ingrato ritmo.
Se os ouvisses por certo me dirias com estranheza e amor:
‘Isso, Delão, isso!’ O bastante pra eu começar recompensada:
Agora as boas, pai, agora as boas:
[...].
(Adélia Prado, 1991 p. 127)
E diante de toda essa inovação, merece destaque a poesia feminina, que praticamente excluída da cena vanguardista, encontra em mulheres como Adélia Prado um suporte para a existência e ainda um resgate para a poesia lírica brasileira, que engloba o dia-a-dia do ser feminino na expressão poética, remetendo ao que diz Alfredo Bosi (1996, p.165): “quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender”. Uma poesia quase sem pretensão, como expressam os versos de Adélia:
Grande desejo
Não sou matrona, mãe de Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como. Aos domingos bato o osso no prato pra
chamar cachorro e atiro os restos.
[...].
(Adélia Prado, p. 12).
É, portanto, uma poesia construída por mulheres que, segundo Vianna (1995, p. 13), saem:
do confinado espaço das cozinhas e alcovas, espalha-se e apossa-se também das salas, varandas, jardins e do resto, dividindo com os homens espaços, ocupações e principalmente linguagens que eram antes inacessíveis.
E ganham um novo espaço para expressar seus mais íntimos desejos.
Uma mulher que surgiu para a literatura ancorada por uma escrita especializada, e pelo entusiasmo de alguns poetas do interior mineiro em resgatar o lirismo na poesia brasileira. Um lirismo que aparece nas obras da autora em foco por meio de um tom de conversa íntima e confissão pessoal mesclado com um sentimento de religiosidade, o que coloca sua obra em destaque, mas que também é motivo para seu desprestígio entre o universo poético masculino.
Uma lírica que, apesar de estar na contemporaneidade, não objetiva apenas apresentar o universo desse indivíduo, mas falar também do cotidiano de um ser feminino, que compartilha de uma família, e se constitui de anseios, dificuldades, erotismo, busca pelo religioso, entre outros. Uma poeta, assim como outras, que luta para sobreviver em meio ao preconceito de uma sociedade conflituosa e pragmática, fazendo uso dessa licença poética para mostrar sua inserção nesse mundo poético, que até então pertence exclusivamente aos homens.
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios
que me cabem,
sem precisar mentir.
[...]
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
(Adélia Prado, 1991, p. 11).
Percebe-se que o eu lírico feminino recusa a condição de coxo na vida, e aceita os subterfúgios que lhe cabem, como uma condição particular de ser desdobrável. E por meio dessa voz ousada, expressa sua independência e capacidade de criar sua própria poesia e fundar reinos. E desdobrar é o que ela faz muito bem, ao despir-se da tradição estilística de sua época e criar, por meio das mais belas imagens de um cotidiano que oscila entre o real e o imaginário, uma poesia perpassada por um tom peculiar. Uma poesia permeada de audaciosas imagens, resultantes do entrelaçamento do vulgar com o religioso, criando, assim, imagens instigantes e, de certa forma, assustadoras, ao enfocar de forma erótica, o tido como santo. Assim, trata-se de uma poesia que representa uma grande inovação na produção literária das últimas décadas. E segundo Maria S. B. Guimarães (2006, p. 19):
A lírica adeliana se alimenta do anseio em buscar uma expressividade, de como dizer a vida e a realidade em sua plenitude, incluindo as lembranças do vivido ou do sonhado pelo sujeito lírico. Desejo de ser plenamente, desejo que a linguagem em sua condição precária não consegue alcançar mas insinua, refletindo o impasse entre a palavra e o mundo. Um eu poético que é múltiplo, mas que anseia ser uno. Busca a unidade pela sua temática memorialística, em que comparece a infância com as lembranças dos pais, dos espaços, dos objetos, dos parentes transpostos em belas imagens.
E por se tratar do universo cotidiano feminino, é uma poesia que não tem fim prático, e que troca a linguagem convencional: granito, lápide, crepe, por uma linguagem que representa a vida prática da mulher administradora do lar: baldes e vassouras. Uma poesia feita com a emoção e com os fragmentos de uma memória que procuram retomar a significativa experiência do SER.
O nascimento do poema
O que existe são coisas,
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
[...].
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me seqüestra de palavras e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes,vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.
(Adélia Prado, 1991, p. 325).
Uma poesia que apresenta de forma imagética o entrelaçamento entre o misticismo religioso católico e o erótico, ou seja, a humanização do tido como Divino. A Bíblia, muita vezes, é intertextualizada em seus poemas, dando significado ímpar ao seu discurso poético. Em alguns poemas chega a permear o santo ao profano, como no poema: Festa do corpo de Deus:
[...].
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo.
(Adélia Prado, 1991, p. 279).
É possível, ainda, perceber neste poema certa revolta, que está associada a um sentimento de angústia, de um eu lírico feminino podado pelo discurso ideológico religioso, que, como tom dominante, leva o amor físico a assumir a conotação de pecado, pois atende ao material da vida. Um eu que não consegue totalizar-se ante seus desejos eróticos e que faz da poesia um escape. Associando ao que diz Friedrich (1991, p. 142): “A liberdade na poesia leva a acolher todos os assuntos sem limitação, sem ter em conta seu nível”. Liberdade essa usada sem reservas pela autora, para dar sabor aos poemas.
Partindo do conhecimento que se obtém a respeito da poesia lírica brasileira contemporânea, pode-se concluir que é nesse momento histórico, e por meio de poetas que buscam o resgate da poesia gratuita, que ela encontra liberdade para revelar sua voz subjetiva e, por meio de uma imagética pluralística, conduz o leitor a mergulhar em sua subjetividade e a repensar sua condição enquanto ser que busca uma totalidade ou maior largueza em cotidiano estreito.
REFERÊNCIAS:
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultriz, 1996.
FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. Trad. Marise Curioni. São
Paulo: Duas Cidades, 1991.
GUIMARÃES, Maria Severina Batista. O canto imantado: um estudo da obra poética de Adélia Prado, Dora Ferreira e Hilda Hilst. Goiânia: UFG, 2006. Tese (Doutorado) Universidade Federal de Goiás.
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
UNGARETTI, Giusepp. Razões de uma poesia. Maria Betânea Amoroso (Trad.). Lúcia Watahim (Org.). São Paulo: Eduesp, 1994.
VIANNA, Maria José Mota. Do sótão à vitrine: Memórias de mulheres. Belo Horizonte, UFMG, 1999.
